Saúde

Pais heróis

Eles lutam contra o tempo, mobilizam campanhas em redes sociais e assistem de perto a triste batalha dos seus filhos e de tantos outros para encontrar um doador compatível de medula óssea para vencer o câncer

“Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. O trecho da música “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque, retrata com fidelidade a rotina de muitos pais que assistem amargamente a derrota dos filhos para o câncer. Entretanto, muitos fazem da solidariedade o reconforto para levantar da cama todos os dias pela manhã. Claudio José dos Santos Azevedo, de 35 anos, durante seis anos – 2009 a 2015 – esteve ao lado do filho João Pedro Azevedo na batalha contra um tipo de câncer no sangue: a leucemia.

Assim como tanto outros Joãos, espalhados pelos quatro cantos do Brasil e até do mundo, o filho de Claudio partiu com oito anos e pediu ao pai que continuasse com a campanha.Na época da morte do garoto, a família tinha recebido a notícia de que irmã dele, Isadora, que tinha nascido há menos de um mês era compatível e poderia ser doadora. O pai conta emocionada que a cirurgia seria marcada, mas João Pedro não resistiu à espera. A família lutou bravamente mais de 2 mil dias, 50 mil horas e três milhões de minutos em busca de um doador compatível para o garoto que sonhava em ser jogador de futebol e adorava jogar videogame. Sendo que um simples cadastro de medula óssea não leva mais do que 20 minutos.

Para que tantas outras crianças, adolescentes e até adultos tenham a chance – apesar de a compatibilidade entre doadores não-aparentados, ou seja, fora do núcleo familiar seja de uma em cem mil –, Claudio quis manter, em nome do amor ao filho, acessa a chama do projeto “Seja um Herói – Salve Vidas”, dedicado a essa nobre causa. A iniciativa já conquistou mais de 4 mil cadastros em diversas campanhas por toda a região.Na próxima semana, nos dias 24, 25 e 27 de abril, a Unifev – Centro Universitário de Votuporanga – recebe a segunda etapa dessa campanha, que é realizada em parceria com o Hemocentro de Fernandópolis e o curso de enfermagem da instituição. O objetivo é aumentar o número de cadastros de possíveis doadores de medula óssea, no órgão que coordena os registros das pessoas compatíveis e dos pacientes que necessitam de transplante, o Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea).Os interessados em participar devem comparecer na Cidade Universitária, nos seguintes horários: das 8h30 às 16h, no dia 24 (segunda-feira), e das 16h às 21h30 horas, nos dias 25 e 27 (terça e quinta-feira).

Os voluntários precisam ter entre 18 e 54 anos, ter bom estado de saúde e apresentar documentos como RG, CPF e o cartão do SUS no ato da inscrição. Após o preenchimento de uma ficha, também é necessário coletar 10 ml de sangue do doador. Quem já possui registro no Redomenão precisa fazer o cadastro novamente. “Este trabalho já está em sua quarta edição, só aqui, na Unifev. Sabemos que temos contribuído significativamente com a causa, mas, nossa expectativa sempre é poder ajudar novas pessoas. O nosso apelo é para que a população participe, pois quanto mais cadastros, maiores são as chances de encontrarmos possíveis doadores compatíveis”, afirma a responsável pelo Núcleo de Responsabilidade Social da Unifev, Marinês Ralho.

 

Luz e esperança

A campanha em Votuporanga, encabeçada por Claudio e abraçada pela Unifev, surgiu como luz esperançosa na vida de Rafaela Cézar Silva, de 10 anos. A filha de Alessandro Miranda da Silva e Perla Cézar Silva foi diagnosticada em fevereiro deste ano com um tipo de leucemia, que é considerado o segundo mais agressivo, mas que melhor reage com o processo de quimioterapia. Entretanto, as sessões durante um mês não foram suficientes. Agora só mesmo um transplante de medula para salvar a menina que ama cuidar de animais. Após essa notícia, os familiares travaram uma luta contra o tempo para encontrar um doador compatível. São inúmeras publicações pelas redes sociais e pelo aplicativo WhatsApp. Ricardo Morial Pignatari, tio de Rafaela, afirma que não tem noção da proporção que tomou à ‘corrente do bem’ para salvar a sobrinha. “Recebemos diariamente várias ligações da região, de Porto Velho, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Goiás, Manaus e outras localidades. Mais de 50% diz que vai procurar um local para fazer o cadastro. Estamos confiantes e queremos salvar a nossa Rafinha e tantas outras que precisam de um transplante de medula”, diz emocionado.

Além da campanha na Cidade Universitária, a família aguarda ansiosa pelos testes de compatibilidade para saber se algum parente poderá ser o doador. Caso os familiares não sejam compatíveis, Rafa entra na fila de espera. Em Rio Preto, quem tiver interesse em doar a medula óssea pode ir até o Hemocentro, com documento original com foto, na avenida Jamil Feres Kfouri, nº 80, Jardim Panorama. Mais informações pelo (17) 3201-5055. O contato da família de Rafaela é (17) 99717-3814.

 

Por Luciano Moura em 19/04/2017 às 23:59
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