Crônicas

O modelete (2)

Crônica escrita pela jornalista Patricia Andrik, autora do blog www.meioalicemeioamelia.com.br

“Adorei o seu beijo”

 Eu já estava de pijama quando a mensagem apitou no meu celular. Não acreditava no que estava acontecendo. O cara mais gato da balada elogiando meu beijo depois de me agarrar, do nada, sem nem me conhecer...

 Mas péra lá! Seria esse o motivo? O fato de ele não me conhecer? E quando conhecesse, ele ainda iria querer me beijar?

 “Pra todos os efeitos tô dormindo aí. Me liga qdo acordar”

 A mensagem da Greta interrompeu minha neurose. Resolvi ir pra cama logo antes que ela voltasse a assombrar minha alegria. Melhor dormir Cinderela do que ficar esperando o efeito da mágica da fada-madrinha acabar...

 Deitada na cama eu repassava a cena com o modelete e só conseguia pensar em como, às vezes, a vida imita mesmo a arte e um beijo não necessita de nada além de atração pra acontecer. A gente mal tinha sido apresentado, mas quando o olhar dele adentrou o meu, o Vinícius tinha toda a razão: já tinha rolado algo ali.

 Dormi como um anjo. No dia seguinte, de camisola velha, descabelada e sem maquiagem, a Andy-pós-produção de “O diabo veste Prada” permanecia encarnada em mim. Acordei Gata Borralheira, mas ainda me sentia “a tal”.

 Aliás, há muito tempo eu não tinha aquela sensação adolescente de conquistar o "Rei do Baile". Era como ganhar um beijo do filho da vizinha no verão, depois de passar a infância inteira o paquerando pela rua - quem nunca, né?! :-)

 Nostalgias à parte, lá estava eu... com 30 anos, um amor mal resolvido de 40 e um paquera de 23. Não era uma equação fácil de resolver, mas para aquele momento estava ótimo! E com um pouco de sorte e aqueles lindos olhos azuis, talvez o Fabinho me ajudasse a superar o Beto.

 “Ainda tá dormindo? Falei que vc ia na missa e dps vinha almoçar com a gente. Minha mãe quer ser gentil. Afinal, tenha dormido muito aí, né?”

 “Ai Greta! Eu, na missa? Não entendo pq não fala a verdade pra sua mãe...”

“Vc ainda não conhece a Dna. Júlia! Vem logo pra cá!”

 Apesar de chatinha e intrometida, a Dna. Júlia cozinhava absurdamente bem então, mesmo com ela não passando mais de três minutos sem citar tooooodas as conquistas da filha como modelo e atriz, começar a frequentar a casa delas foi gostoso pra mim. A Greta sofria, morria de vergonha, mas com a perda das amigas antigas de Rio Preto por conta da fama, e da maioria das amigas novas do Rio de Janeiro por conta da falta de fama, eu era a única que encarava o almoço de domingo com a Dna. Júlia sem nenhum problema.

 

No quarto da Greta, com dezenas de pôsteres, faixas de miss, troféus e reportagens de jornais emolduradas, nós conseguimos enfim conversar sobre a noite anterior.

 -Quer dizer que a senhorita ficou com o meu amigo?

 - Mas gente… Você já tá sabendo?

 - Claaaaro, Melí! Ele me mandou mensagem de madrugada…

 - O que ele falou?

 - Disse que tinha adorado a minha amiga. Tá aqui na mensagem do celular ó, pode ver!

 - Foi muito louco… Ele me beijou do nada!

- Assim que é bom! Pra que ficar falando, falando, falando… A tua cara tá ótima hoje!.. Aliás, por falar em falar, falar, falar…

 - Então… tô esperando… não vai me contar como foi sua super noite com o Cássio?

 - Então… nem foi tão super assim. Ele ficou falando da namorada, que tá confuso, que me acha sensacional mas que a namorada isso e aquilo…

 - Mas não rolou nada?

 - Rolar, rolou… Mas não foi bem o que eu esperava… Enfim... vamos falar de você! Desse sorriso que está no seu rosto! Você curtiu o Fabinho?

 - Sabe que eu curti? Risos... Pena que ele é tão novinho, né? E modelo!

 - Ihh minha filha! Esses caras mais novos são ótimos! Tem um gááás! Uma vez, lá na Rio, eu conheci um mocinho no samba…

 A Greta não tinha o menor pudor de contar – em detalhes – todas as suas aventuras sexuais. Eu, que já sou mais discreta, demorei um pouco pra me soltar e depois, me divertia horrores com as histórias dela. Prometo até contar algumas por aqui. No futuro, quando eu perder a vergonha… :-P

 Fato é que, naquele dia, ela falou mais do mocinho do samba do que do irmão natureba. Por isso, na volta pra casa, só pude pensar que o negócio entre eles não teria muito futuro.

 Quanto ao meu futuro, era cedo pra dizer.

“Tenho um aniversário de família + tarde mas queria passar aí antes pra te ver. Pode ser?”

 Mais uma vez, “O diabo veste Prada” caía como luvas Dior para mim… A trilha do filme (Suddenly I see, da KT Tunstall), fala sobre uma menina bonita, mais alta do que o mundo, que enche cada esquina como se fosse nascida em preto e branco. A perfeita materialização da mais completa auto-estima.

De repente eu percebia. Não importava como, nem por quê. A menina da música era eu recebendo a mensagem do Fabinho... exatamente aquilo que eu queria ser!

 Patricia Andrik é jornalista e autora do blog “Meio Alice, meio Amélia”. Trabalha há quase dez anos na área de TV e atua também como docente de uma faculdade de comunicação da região. Casada, romântica e sonhadora, não deixa passar um acontecimento da vida sem que lhe sirva de inspiração.

Por Patricia Andrik em 14/06/2016 às 16:17
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