Crônicas

Santos-Rio Preto (2)

Crônica escrita pela jornalista Patricia Andrik, autora do blog www.meioalicemeioamelia.com.br

As boas-vindas realmente tinham sido as melhores possíveis e, em pouco tempo, eu já começava a gostar da nova cidade.

Nos dias que se seguiram à minha chegada, concluí que poucas vezes eu tinha sido tão bem tratada por pessoas tão desconhecidas.

Como o Cacá havia dito, o Adão - o novo chefe - era mesmo um amor de pessoa. Não que o Trevisan, de Santos, não fosse. Mas o Adão era daqueles líderes antigos, que raramente se vê hoje em dia. O tipo de patrão que não luta apenas pelos interesses da empresa, mas principalmente, pelos direitos e merecimentos dos funcionários.

A equipe fazia jus ao seu estilo de administração: todos eram jovens – até mais do que eu - e a maioria, solteiros, como eu. Setenta por cento dos homens da redação eram gays como o Cacá. Alguns menos, é claro. Ou pelo menos, mais discretos. Mas foi percebendo isso que cheguei à minha terceira grande constatação sobre Rio Preto: além de ter ruas que mudam de nome em linha reta e capivaras soltas pela Represa, a cidade era ainda lotada de gays por todos os lados.

A quarta constatação sobre Rio Preto também veio logo na primeira semana: o povo daqui é, de longe, o mais festeiro que já conheci em toda a minha vida. E não tem dia, nem horário que desminta essa máxima. Tudo – ou qualquer coisa - é motivo pra uma reunião. Seja pra um chopp no Zero Grau, uma coxinha do Vila Dionísio, uma taça de vinho na Bella Capri ou um dogão na esquina.

Aliás, o tal “dogão” também tem outra super particularidade que me causou um pouco de embaraço e muitas risadas aos meus colegas na primeira vez que saímos pra comer.

- Qual o seu pedido, moça?

- Um cachorro-quente, por favor...

- Carne, frango ou misto?

- Cachorro-quente?...

Sim, aqui eles servem o bendito sanduíche com carne moída, frango desfiado ou os dois juntos (oi?)... Nada de purê de batata, milho verde em conserva, vinagrete ou molho acebolado com pimentão, como eu costumava pedir.

- Só pão e salsicha, moça... Tradicional mesmo...

Foi o jeito. Depois até acabei experimentando a iguaria como se faz aqui. Mas mesmo hoje, cinco anos depois de conviver com esse tipo de dogão, ainda prefiro o tradicional à moda santista.

Particularidades à parte, no final da segunda semana eu consegui alugar um apartamento e finalmente deixei o meu quartinho no hotel St. Peter. Meus pais vieram de Santos pra me ajudar a mobiliar a nova casa. Trouxeram TV, utensílios de cozinha, roupas... Foi uma viagem digna da Família Buscapé.
Na segunda-feira seguinte chegaram as compras: cama, fogão, geladeira, rack, sofá... o básico para sobreviver.

Mesmo muito simples, o apê ficou uma graça. E o mais importante: era meu. Só meu!

O “até breve” para os meus pais foi no portão do prédio novo. Um lugar que eu mal tinha decorado o endereço.

Quando saí do elevador e entrei no apartamento de número 66, percebi que, mesmo mobiliado, ele estava vazio.

Deitei no sofá ainda desconhecido e sem qualquer intimidade comigo e olhei para aquele teto que eu nunca tinha visto antes. Me senti sozinha... Como nunca na vida!

E chorei. Chorei como uma criança chora quando é deixada pelos pais na porta da escola.

E sem saber até quando aquele sentimento iria durar, percebi que amadurecer pode ser ainda mais doído do que a gente consegue imaginar.

 

Naquele momento eu não consegui lembrar do quanto desejava morar sozinha, num lugar só meu. Tudo o que me vinha na cabeça era a imagem do Beto dizendo adeus naquela nossa última manhã em Santos. E da Dona Tereza, minha mãe, com o rosto encharcado de lágrimas dizendo pra eu ficar com Deus.

 

E enquanto, aos prantos, eu abraçava o travesseiro que tinha cheiro de novo me forçando a pensar que aquela mudança toda de vida teria um por que, da caixinha de músicas da minha memória veio uma canção do Ben Harper que o Beto tinha me ensinado a gostar.

Eu tinha mesmo preferido andar sozinha a me arrastar por alguém que não parecia querer caminhar ao meu lado. Tinha preferido cair sozinha, a deixar ele me derrubar.

E por isso, ali pra mim, em São José do Rio Preto, aquele não era um dia pra comemorar a independência. Era só um dia triste e solitário.

Terrivelmente solitário...

Patricia Andrik é jornalista e autora do blog “Meio Alice, meio Amélia”. Trabalha há quase dez anos na área de TV e atua também como docente de uma faculdade de comunicação da região. Casada, romântica e sonhadora, não deixa passar um acontecimento da vida sem que lhe sirva de inspiração.

Por Patricia Andrik em 05/01/2016 às 00:00
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