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Cidades

Estelionato no futebol

Orley Vital, empresário de Rio Preto, é condenado por ludibriar garotos do Mato Grosso com promessa de que assinariam contrato com clubes de futebol; ele recebeu R$ 7,5 mil de cada um dos pais e deixou as vítimas desamparadas em hotel próximo à rodoviária

O sonho de pertencer ao glamouroso mundo dos jogadores de futebol levou dois garotos do estado do Mato Grosso a se tornarem vítimas de um empresário rio-pretense. O golpe colocou os adolescentes em situação de risco no centro da cidade e virou caso de polícia em Rio Preto. Como resultado, a 16ª Câmara de Direito Criminal de São Paulo condenou o empresário Orley Vital a um ano, quatro meses e dez dias de prisão, em regime semiaberto, além do pagamento de multas, pelo crime de estelionato.

Denunciado pelo Ministério Público de Rio Preto, Orley trouxe jovens, menores de 18 anos e naturais do Mato Grosso, para Rio Preto, com a promessa de que assinariam contrato com times grandes e abocanhou R$ 7,5 mil de cada um dos pais para cobrir despesas de hospedagem, transportes e documentação para confeccionar tais contratos.

No entanto, entre adiamentos e sumiços de Orley, os jovens não receberam propostas de nenhuma entidade esportiva de grande ou pequeno porte. Pior que isso, ficaram alojados sozinhos no hotel Nilo, próximo ao Terminal Rodoviário, no centro de Rio Preto, sem qualquer acompanhamento de Orley, e distantes da rotina escolar até que foram resgatados pelos próprios pais em péssimas condições, conforme consta na ação no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Condenado em segunda instância, o empresário ainda pode recorrer aos tribunais superiores, como o STJ (Superior Tribunal de Justiça) e o STF (Supremo Tribunal Federal). Independentemente disso, “após o trânsito em julgado da decisão, o processo volta à vara de origem (Rio Preto) que irá expedir o mandado de prisão.”

Orley está proibido, desde julho de 2016, de realizar peneiras (processo de seleção de potenciais jogadores) e levar garotos para times de futebol. Após denúncias de pais de garotos de cidades vizinhas e também de Minas Gerais e Mato Grosso, o Ministério Público levantou vários casos praticados por Orley em Rio Preto desde 2014.

A Polícia Civil fez diligências no hotel Nilo e também na sede de uma escolinha de futebol, na estância Jockey Clube, e encontrou jovens, com idades entre 16 e 18 anos, abrigados sem autorização expressa dos pais, com alimentação precária e distante da escola.

Um dos responsáveis pelo hotel Nilo disse, em depoimento, que Orley já hospedou cerca de 50 garotos “afirmando serem promessas do futebol”. Na denúncia, o promotor da Infância e Juventude de Rio Preto, André Luís de Souza, afirmou que Orley “se intitulando observador técnico do Derac e da Portuguesa Londrinense, buscava junto a alguns Estados ‘jovens talentos’ no futebol para se dirigirem a Rio Preto para períodos de avaliações e treinamentos em clubes da região.”

 

Dois sonhos que se transformaram em pesadelo

A decisão da 16ª Câmara que julgou Orley se refere apenas aos casos de Matheus Roma Pinatti e João Pedro Alves Marçal, respectivamente, filhos de Maciel Pinatti e Hélio Marçal.

Segundo a denúncia, Orley se passou por “olheiro” (descobridor de talentos no futebol) em Porto Esperidião, no Mato Grosso, e ludibriou Matheus e João Pedro com a promessa de encaminhá-los para grandes clubes do país.

Em seguida Orley chamou os pais dos meninos, alegou que para fechar o negócio teria que hospedá-los em Rio Preto, para um período de treinos e testes. A viagem e hospedagem custariam R$ 1,5 mil para cada garoto. Os pais de Matheus e João Pedro fizeram o pagamento antecipado.

Já em Rio Preto, eles treinavam em campos de várzea. O próprio Orley conduzia as atividades. Dez dias depois, Orley informou a Matheus e João Pedro que haviam sido aprovados e precisavam, urgentemente, voltar para Porto Esperidião buscar mais roupas e documentos pessoais. Quando Matheus e João Pedro estavam no estado mato-grossense, Orley ligou para os pais dos meninos e fez novo pedido. Dessa vez, valor ainda mais vultuoso. Orley pediu um depósito de R$ 6 mil cada, alegando que seria necessário para custear “os papéis da contratação com os clubes”. Os pais concordaram com Orley. Porém, o empresário ficou mais de 10 dias sem comparecer no hotel, apenas telefonava com a promessa que a tal contratação estava prestes a ser finalizada. Dez dias depois, em desespero, Matheus e João Pedro contaram toda a situação para os pais. Maciel e Hélio vieram até Rio Preto e localizaram Orley, que se comprometeu em devolver o investimento de R$ 15 mil, por meio de um cheque. O cheque, no entanto, não tinha fundos e voltou. Um dos pais teve que pedir dinheiro emprestado aos familiares para poder regressar com o filho. Sem contrato e desiludido das promessas do futebol, os garotos foram recomeçar a vida em Porto Esperidião.

O Procurador de Justiça José Cláudio de Melo Costa, em parecer no processo, considerou que o fato de “nenhum jogador ter sido encaminhado para algum clube oficial comprova que o réu não tinha contato algum com clubes de futebol, mantendo apenas uma verdadeira fachada, com encaminhamento de jovens para um hotel e supostos treinos, para conseguir angariar outras vítimas e obter dinheiro delas. Portanto ao receber dinheiro dos pais, o réu (Orley) tinha pleno conhecimento de que não era capaz de entregar o serviço contratado.”

A reportagem não localizou Orley para comentar o caso. O  telefone celular dele estava apenas na caixa postal. Já a assessoria de imprensa da Defensoria Pública, órgão que defende Orley no processo criminal, não havia respondido o e-mail até da reportagem até o fechamento desta edição.

 

Ministério Público vê negligência e proíbe empresário de fazer ‘testes’ com garotos

 

Longe de um lar e distante da sala de aula. A situação dos garotos que deixam a casa dos pais, confiando nas promessas de Orley Vital, e depararam com outra realidade em Rio Preto despertou a atenção do Ministério Público. Ao ingressar com ação civil, o promotor da Infância e Juventude de Rio Preto, André Luís de Souza, atentou para o estado de vulnerabilidade a começar pela região (do terminal rodoviário) onde os garotos, menores de 18 anos, ficaram hospedados. “Local altamente vulnerável, onde é de conhecimento público a existência do comércio de entorpecentes, prostituição e circulação de usuários de drogas”, descreve o promotor na denúncia.

Souza também aponta para outros problemas causados pelas promessas de Orley. Dentre eles, a falta de uma rotina escolar e o descaso com alimentação e acomodações. “Os adolescentes permaneciam “em teste” informal, por meses no clube, sem frequentar a escola ou com frequência irregular, ocasião em que Orley Vital exigia dos pais repasses financeiros para manutenção dos jovens nesta localidade”, acusa o promotor.

Na defesa nos autos, Orley alega que o dinheiro recebido pelos pais servia somente para custear os gastos com hospedagem, translado e alimentação.

Não é a primeira vez que Orley é acusado de estelionato após promessas no mundo do futebol. Há registros de passagens por Araçatuba. Em Bonfim Paulista, distrito de Ribeirão Preto, o rio-pretense foi ainda mais audacioso. Orley utilizou, sem qualquer vínculo e autorização, o nome do Flamengo, do Rio de Janeiro, para realizar duas peneiras e cobrou 30 de cada candidato. Mais de 350 candidatos, com idades entre 12 e 22 anos, fizeram o teste. Para um deles, Orley solicitou R$ 15 mil e se comprometeu em colocá-lo em um clube do interior paulista. Na ocasião, o próprio Flamengo negou realização de peneira no Estado de São Paulo e muito menos qualquer autorização para Orley utilizar o nome do clube carioca.

 

Cuidados redobrados com os garotos

O caso de Orley é apenas um entre tantos outros espelhados pelo Brasil. O país do futebol é uma terra fértil para golpistas ludibriarem jovens e causar prejuízos aos familiares.

Diante desses casos, a Confederação Brasileira de Futebol, entidade que rege o futebol no País, criou o selo “Certificado de Clube Formador”, em 2012. Apenas dois times da região possuem: Mirassol e Grêmio Novorizontino, de Novo Horizonte. Dos 700 clubes filiados à CBF, apenas 43 conquistaram o selo. Para garantir essa chancela, os clubes precisam cumprir cinco medidas. São elas: garantir a saúde dos jovens jogadores (por meio da contratação dos seguintes profissionais: médico, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, e de ações como promover visitas frequentes dos ou aos familiares, oferecer três refeições diárias, manter os alojamentos limpos e locais de treinamento preparados para atendimento de urgência); garantir frequência escolar dos jovens jogadores; apresentar o programa de treino, os responsáveis e compatibilidade com a atividade escolar dos jovens jogadores; comprovar participação em competição oficial; apresentar a relação de técnicos e preparadores físicos responsáveis.

Para o presidente do Mirassol, Edson Antonio Ermenegildo, ser clube formador não é só garantir a formação esportiva. E, sim, contribuir para conduta dos jovens dentro e fora de campo. “O Mirassol FC sabe que é de suma importância ter o certificado de selo formador devido ao trabalho que desenvolvemos com as nossas categorias de base”, disse Ermenegildo. “Esperamos melhorar ainda mais nossa estrutura com a inauguração do Centro de Treinamento (previsto para dezembro deste ano), que vai contar com quatro campos oficiais, vestiários, academia, salas de fisiologia, fisioterapia, imprensa e administração."

Por Carlos Petrocilo em 08/11/2018 às 23:59
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