Artigo Político (Wilson Romano Calil)

João violino, o “menino- passarinho”

Artigo escrito por Wilson Romano Calil

O negro João faqueiro, cujo nome o povo lhe dera, por fabricar facas rústicas, e vende-las na feira.

Chefe de uma família de gente boa, criava aquele menino branco, órfão, o Joãozinho, cujo nome de batismo era João de Oliveira.

O moleque nasceu gostando de passarinhos. Três características moldavam sua personalidade: inteligência, habilidade manual, honestidade incontestável.

Andava o Joãozinho lá pelos seus quinze anos e ir estudar nem se cogitava.

Um apartheid, naquela época discriminava os pobres, como agora.

Ele era um faz de tudo: encanador, eletricista, soldador, calheiro, pedreiro, carpinteiro, o que fosse necessário.

Fazia gaiolas, retirando os arames de pneus velhos, em designs seus, soldando ponto por ponto com um improvisado maçarico a gasolina, coisa que só se tornou possível, há pouco tempo, com a solda MIG.

Suas peças, sessenta anos depois, são disputadas como objetos de arte.

Enfim, e resumindo, era um gênio.

Mas, voltemos aos quinze anos do nosso personagem para entender o porque “João violino”, nome com o qual atravessou o lago da vida.

Pelo seguinte: aquele mocinho tinha um carisma natural que despertava confiança. O vizinho, Marcos de Souza Moura, de trinta anos, resolvera dar uma guinada na vida e procurou Joãozinho.

“Olha, a vida aqui ‘tá’ difícil, vou tentar São Paulo. A única pessoa em quem tenho confiança para deixar meu violino é você. Se eu ficar por lá, volto e pego o instrumento.”

E lá se foi o vizinho, que voltou quinze dias depois.

“Não fico em São Paulo. A gente ganha mais, mas gasta tudo. Tudo é caro. Por favor, pega o meu violino”. Disse o homem.

Joãozinho foi até o quarto onde vivia e veio com o instrumento na mão.

“Aprendi a tocar esse negócio”. E, empunhando-o, deu um show.

O outro, embasbacado, teimou que ele estudara violino. Só se for na outra vida, porque nesta...”.

Mas, o incrível vem agora.

O vizinho, empolgado – ele era um bom violinista, de repente, parou.

“Joãozinho, você colocou guizo de cascavel no meu violino?”

Explico: há uma crença sertaneja entre violeiros e violinistas que, em se colocando dentro do instrumento, guizo de cascavel melhora o som do instrumento.

“Coloquei não. E esse não é o seu violino”.

Foi novamente ao quarto, e trouxe o outro instrumento.

Mas como?

“Eu tinha dez tostões, fui na serraria dos Vilanova, lá na Vila Maceno e comprei uns restos de prancha com os quais eu fiz o meu violino”.

O seu Rossi deu-me verniz asa-de-barata, tingi o verniz para imitar o seu.

Por isso, os dois violinos são iguais. Mas, o som do meu é melhor porque no arco que eu fiz as cordas são entremeadas por pelo de rabo de burro”.

“João faqueiro” ia chegando: “Êta menino sem juízo”.

A partir daí, começou a tocar em orquestrinhas e conjuntos nos bailes da Associação dos Empregados do Comércio, no Clube dos Bancários, no Automóvel Clube.

Os músicos usavam smoking e gravata borboleta. Os bailes, em geral, acabavam as três horas da manhã. Ele ia para casa, punha roupa-de-briga e ia para as margens dos rios, nas matas vicinais, ouvir pássaros. Conhecia o nome de todos e os imitava com perfeição.

Mas, será que esse indivíduo de fato existiu?

Pergunte aos músicos antigos. Deixou filhos: o Luiz Carlos de Oliveira, o Valter, e duas filhas. Era concunhado do Coronel Osvaldo de Carvalho.

Existia ou não existia?

Em 1.982 seu violino quebrou sem causa aparente. Ele foi ficando triste, cada dia mais triste. Não mais ia ouvir pássaros na mata.

Um dia procurou seu grande amigo Nivaldo Ferrari: “Ferrari, estou partindo. Acho que já cumpri minha missão por aqui”.

O Ferrari não entendeu aquela conversa.

Dias depois João violino morreu.

Dizem que na hora alguém viu uma manchinha verde amarelada voando para o infinito.

João violino transmudou, transluziu, transfigurou, transfugiu, transmigrou rumo ao além. Foi para o céu na forma de um pintassilgo.

O “menino-passarinho” matou a vontade de voar.

Wilson Romano Calil é médico, advogado, professor, orador, escritor e ex-prefeito de Rio Preto.

 

Por Wilson Romano Calil em 15/12/2016 às 22:02