Artigo Político (Wilson Romano Calil)

Explique-me, se puder

Artigo escrito por Wilson Romano Calil

Prezado leitor, uma advertência, não é um mérito a ser aplaudido.

Ainda jovem, conseguia imitar vozes.

Tínhamos um rádio da marca Cacique ondas curtas e longas

Menino me apaixonei pelo rádio. Fui locutor de rádio.

À época, no Brasil, eram a Mairink Veiga e a Tupí as rádios de maior importância.

As rádios nacionais captava-as com facilidade.

As ondas curtas não conseguia captar até que alguém muito entendido explicou: onde está escrito ondas curtas você vai encontrar dois furinhos. Coloque um arame em cada um com fio de eletricidade, sem corrente, estenda-os até o varal de roupas, lá no quintal. Você estará produzindo uma antena (cuidado com choque).

As 19:30 horário do Brasil ligava em ondas curtas e captava a rádio BBC de Londres.

Havia um programa em língua portuguesa que começava assim: “Senhores ouvintes, aqui fala Luiz Jatobá em edição para o Brasil.”

A seguir, Emílio Carlos falando para o Brasil: “Senhores ouvintes, boa noite.”

John Davis, falando para o Brasil pela BBC de Londres.

Eu os imitava, embora fosse muito jovem, com uma perfeição de espantar.

Fim da guerra, muitos anos depois, estava eu trabalhando como auxiliar médico no pronto socorro central do Rio de Janeiro.

Segurando um doente pelo braço, caminhando lentamente um senhor de porte médio disse-me: “Sou médico como você, mas nunca atendi um doente, e nem fui a faculdade jamais buscar o diploma.”

Reconheci aquela voz de imediato.

Ele continuou. Trouxe este meu amigo que, em minha opinião, está com infarto. Examinei o doente e disse-lhe: “Você fez bem em não buscar o diploma, pois está confundindo infarto do miocárdio com infecção intestinal.”

A partir daí comecei a conversar com ele com a voz dele, o que provocou-lhe um grande espanto. Era o Luiz Jatobá.

Aí, contou-me que, ao término da guerra, saiu da BBC e veio ser narrador de filmes da Metro-Goldwyn-Mayer. Fiquei lá vinte anos. Agora, vim para o nosso país. Infelizmente, o filho se envolveu com bandidos do Rio de Janeiro e foi assassinado.

Muitos anos depois, eu estava no aeroporto de São Paulo aguardando o horário de um voo e encontrei o ex-deputado Bady que, quando viu-me, chamou-me e disse: “Eu quero lhe apresentar esse meu amigo, o deputado federal Emílio Carlos, orador como você.”

Eu comecei a usar o modo de falar dele. O Bady levou um susto.

A partir daí, eu contava com um novo amigo que, quando vinha a Rio Preto, procurava-me e pedia para eu só falar com ele na voz dele.

Quarenta anos depois estava em minha casa, quando tocou a campainha. Era o cidadão rio-pretense João Bassitt, disse-me: “Vim lhe pedir um favor, ir comigo à casa de Miss Speden, que já foi minha e sua professora de inglês. Está completamente desorientada e mora na Rua Benjamin Constant em um prédio em companhia de um senhor que não sabe o que fazer.”

Ao chegarmos ao apartamento, quando ele se dirigiu a mim, e começou a falar, eu comecei a lhe responder com a voz que ele tinha ao tempo da BBC.

Uai! Disse ele espantado.

Pediu-me para repetir as frases com a voz dele e seus olhos se encheram de lágrimas. Era o terceiro locutor dos três que citei inicialmente, John Davis, cujos caminhos com o meu caminho se cruzaram.

Explique-me, prezado leitor, se puder, porque eu mesmo não tenho explicação para o fato.

 

Wilson Romano Calil é médico, advogado, professor, orador, escritor e ex-prefeito de Rio Preto.

Por Wilson Romano Calil em 01/12/2016 às 23:00