Artigo Político (Wilson Romano Calil)

Duas mesas

Artigo escrito por Wilson Romano Calil

Muitas pessoas entraram em contato comigo, comentando o artigo no qual falo da muralha da China a qual transformou o país numa prisão.

Em outro artigo, falei da preocupação com um movimento no Rio de Janeiro, pedindo Regime Militar.

E não é que na semana que passou invadiram a Assembleia pedindo, publicamente, o Regime supracitado?

Quem, como eu, já leu “A autópsia do medo”, livro do jornalista Percival de Sousa, sabe do perigo de que a moda pegue.

Num episódio relatado no livro, conta o autor que todos os sábados os órgãos de informação se reuniam nas dependências do DOPS.

Em certa reunião, um delegado falou: - “Precisamos saber o que faremos com aquele cara que prendemos há 15 dias achando que era um agente perigoso.

No interrogatório, apesar das torturas, ele não revelou nada, pois o que ele é mesmo, é meio louco.

O que faremos com ele?”.

Outro delegado respondeu: “Ora, soltá-lo, já que não é agente, o que le é, é biruta”.

- “Soltá-lo?”, disse outro agente.

- “Ele está esfrangalhado. Se sair, vai aos jornais.

Travou-se uma discussão. Até que o delegado Fleury disse: “Vamos interromper por um minuto. Já já eu volto.”

Levantou-se da mesa, pouco tempo depois, ouviu-se um estampido.

Fleury voltou, e disse: - “O caso está resolvido”.

Ele havia dado um tiro na cabeça do preso.

Comparem os comportamentos.

No Clube Monte Líbano, numa comemoração, falou um brilhante advogado de São José do Rio Preto, isso, há muitos anos atrás.

O nome do advogado não estou autorizado a revelar.

Cito dele, apenas as iniciais doutor P. N.

Era o dia das mães.

Em se referindo à sua mãe, narrou o que ocorreu nesse mesmo dia em sua juventude.

A família passava por sérias dificuldades financeiras.

Conta o talentoso causídico que era difícil a aquisição de alimentos por conta da falta de dinheiro e que, neste mesmo dia, naquele tempo, foi possível comprar 300 gramas de carne de segunda que sua mãe picou em pedaços bem miúdos e, com eles, fez uma sopa.

Ele, e todos os irmãos, foram servidos normalmente.

Mas, notou o cuidado dela quando foi servir-se, para abastecer o próprio prato com carne.

Se lembrava, com muita emoção, o zelo que ela teve em não colocar na concha, com a qual se servia, nem, ao menos, um naco de carne para que mais carne sobrasse para os filhos.

Hoje, passados muitos anos, ela já deixou esse mundo.

Seus filhos se tornaram adultos, constituíram família e são vitoriosos nas profissões que escolheram.

Todos se lembram dela com indizível ternura.

Parabéns doutor P. N., orgulho lá de Macaubal, e de Rio Preto também, pela mãe que teve.

Eram duas mesas. Na primeira, a reunião dos Delegados e, na segunda, a mãe com seus filhos.

Na primeira, no DOPS, a maldade.

Na segunda, a mãe cultivando a humanidade e a espiritualidade.

Em que mesa Jesus de Nazaré escolheria para sentar-se?

Na da maldade ou, na da espiritualidade?

Pare e pense. Em que mesa você sentar-se-ia?

Wilson Romano Calil é médico, advogado, professor, orador, escritor e ex-prefeito de Rio Preto.

Por Wilson Romano Calil em 17/11/2016 às 21:44
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