Artigo Político (Wilson Romano Calil)

Carta de Amor

Artigo escrito por Wilson Romano Calil

Consumatun est.

No pé, na cruz, o manto, que por inconsutil, não tinha costura, se partido, perderia o valor.

Os centuriões tomam os dados e jogam a sorte do manto de Jesus. No alto o Justo, morto. Embaixo, a ambição, o jogo. Mas o céu escureceu. De medo os centuriões fugiram e o manto ficou.

Porém, vou falar dele, aquele colega quieto de altiva humildade.

Vestibular de medicina, na década de 50. Passar era como ganhar na Sena. Nas cotações, o Olívio nem contava, viera de longe, sem protetores ou padrinhos. Ia disputar com gente poderosa, com descendentes de figurões ilustres.

Chegou o grande dia em que a lista dos resultados estava exposta no saguão da faculdade. Aquela multidão nervosa, olhava para o painel, onde se lia: em 1º lugar, aprovado na Faculdade Nacional de Medicina, Olívio Louro Costa. Era o início de uma vida gloriosa do estudante, do médico, do cirurgião, do professor.

Os colegas se interrogavam: é católico? Protestante? Espírita? Budista? Agnóstico? Ateu? Ninguém nunca soube. O que se sabia era que o zênite de sua vida era um grande amor, a Sirley. Os dois eram admirados. Ele, por tudo que já dissemos, ela, por bonita, muito bonita, por inteligente, muito inteligente. Procuradora do estado do Espírito Santo, pregadora espírita, capaz de repetir letra por letra o discurso de 1 hora e 20 minutos do orador da turma. Olívio e Sirley, amor, amizade, admiração mútua e, acima de tudo, ternura. Mas o Olívio era humano, e no seu auge deparou-se com a doença. Sabia do pouco tempo que lhe restava. Passaram a vida juntos, trocando cartas, mais de 100.

A última carta:

“...trocamos centenas de cartas e é natural que haja uma última, enquanto ainda tenho condições de escrevê-la. No princípio, foi um discreto abraço de parabéns por um pequeno e decisivo sucesso meu”. (Esse “pequeno” sucesso era a vitória no vestibular...). “Depois ficamos noivos...”, “no barraco do José Chagas, em Guaraparí, ouve uma chuva muito forte e chuviscava dentro da casa e você veio silenciosamente, no escuro e estendeu um cobertor grosso em cima de mim, senti que só em criança minha mãe tinha esses cuidados...”, “A vida toda jogou- me cobertores para me proteger do frio.”... “Sei que não correspondi inteiramente às suas expectativas”... “Não consegui tudo, mas fui o médico que eu queria ser. Passei a vida toda cuidando de doentes”... “Nunca trabalhei visando ganhar mais dinheiro. Nessa minha profissão acho que o dinheiro não deve ser o objetivo maior do nosso trabalho.” Neste trecho o Olívio se revelou: era um cristão. “As suas convicções religiosas nunca foram a causa de atrito entre nós.”

O final: “Considero a ternura a qualidade que mais me comove, e sua ternura me comoveu. Sempre te achei a moça mais bonita dos meus tempos de jovem e ainda tem hoje a mesma beleza de outrora, mas se não fosse assim, a teria amado do mesmo jeito, pela ternura que tem e que pode transformar em ouro qualquer escória.” “Divergências tivemos, porém pequenas e fugazes. Também era de se esperar em quarenta anos de convivência.

Está faltando alguma coisa a dizer: é que se este meu tratamento não for bem sucedido, não se deixe abater, continue seu trabalho normalmente. Afinal temos que cumprir o ciclo da vida...” “Estes quarenta e cinco anos passaram tão rápido por causa de sua fantástica presença. Obrigado pelas atenções. Mantenha sempre sua paz, através de sua fé e paciência. Pelo nosso amor, o meu louvor”.

Olívio.

Consumatun est. Sirley S. Drumond Louro, os filhos e os netos, continuam morando em Vitória, pela graça de Deus, com a mesma dignidade do Olívio, que ela garante que continua entre eles. Os centuriões fugiram amedrontados e deixaram o manto, desde então ele corre o mundo para que as pessoas especiais, por ternura, cubram os justos em noites de tempestade. É o amor e a saudade. Lembrei-me do Chico: “Saudade é o revés do parto. É a mãe que arruma o quarto para o filho que já morreu”.

Wilson Romano Calil é médico, advogado, professor, orador, escritor e ex-prefeito de Rio Preto.

Por Wilson Romano Calil em 21/10/2016 às 01:14
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