Artigo Político (Wilson Romano Calil)

O menino de Nova Granada

Artigo escrito por Wilson Romano Calil

É óbvio, e ainda mais ululante que o óbvio do Stanislau Ponte Preta, que quem já viveu meio século de atividades médicas deparou-se, não raras vezes, com situações as mais inesperadas, ligadas aos fatores a que a condição humana costuma levar os seres da nossa espécie.

Alguns médicos já escrevem livros autobiográficos, cujas narrativas vão do cômico ao trágico. O dr. Sizenando, brilhante médico da Santa Casa, lá pelas décadas de 50 e 60, contava que certo dia, uma família da zona rural lá do sertão viera para trazer a consulta de um dos seus membros. O marido, a mulher e a mãe da mesma vieram do Sertão, como já disse, e o Sertão da época era onde se iniciavam Votuporanga, Fernandópolis, Santa Fé do Sul.

Sizenando, cuja característica principal era ser inteligente e perspicaz, percebeu, logo de início, que eram pessoas simples e de poucos recursos. Ao invés da receita, abriu a gaveta de sua mesa e apanhou vários medicamentos, amostras grátis, e, na medida em que os empilhava ia, em uma folha de seu receituário, escrevendo o nome do medicamento e o modo de usar. Marcou retorno para um mês depois. Após os clássicos trinta dias, eis a família de volta.

Sizenando: “Então, a mulher melhorou?” O marido: “A muié miorou, mas a véia não tá boa não”. Sizenando: “Espera aí, eu tratei da mulher”. O marido: “A fia, que tá na escola, leu que era para dar uma injeção por dia na véia”. Sizenando: “Na véia não, escrevi na veia e na mulher”. O marido: “Vichi, por isso que quando ela tomava aquela injeção, se intortava toda. Tá torta até agora”.

Quanto a mim, o trágico sempre suplantou o cômico.

Muita água passou por baixo da ponte, desde que aqui cheguei, no início da década de 60.

Alegrias e tristezas, vitórias e decepções, como qualquer ser humano. Mais alegrias e vitórias do que eu acho que mereça. Vi e vivi muitas coisas. Vi coisas boas e vi o povo sofrendo por pragas e desmandos de governos nefandos. E, se mais não vi, possivelmente seja por não ter ultrapassado, ainda, as Portas da Muralha da percepção, de que falou Aldous Huxley. Aqueles eram tempos difíceis. A previdência social engatinhava. O Estado era inerte anômico, como agora, e tão malévolo quanto. E não sou anarquista. A medicina tinha poucos recursos técnicos, por outro lado, era infinitamente mais humana.

Poucos médicos atendiam a toda região enfrentando adversidades. A Santa Casa era grande mãe. Abrigava os pobres. Era grande protetora dos indigentes e dos médicos, que lá iam em busca de aprendizado e clínica, para depois levantar vôo e quase sempre pagar com ingratidão. Foi nesse ambiente, e nesses tempos, que aconteceu comigo a história que eu chamo de “a história do menino de Nova Granada”. Alguns diziam que ele era de Palestina, mas não importa o local, o que importa é que chegaram para consulta aquele homem e aquela mulher acompanhados daquele menino. Ela, a mãe, era portadora de um tumor maligno ginecológico e o mais otimista dos prognósticos para aquele caso era de 3 meses de vida.

Durante a internação da mulher, o marido queixou-se de dor de estômago. A palpação revelou massa tumoral no epigástrio. Submetido a raio-x, detectou-se grande tumor gástrico maligno, com metástase para órgãos vizinhos. Era novamente o câncer. Marido e mulher, ambos condenados, com curta sobrevida. Era preciso comunicar à família. Descobri que a família era composta pelo pai, pela mãe, pelo menino de 12 anos e duas irmãs mais novas. Foi aí que tomei a decisão pela qual, até hoje, convivo com a dúvida: foi acertada a decisão? Foi ética? Foi legal? Foi humana?

A verdade é que não encontrei outra saída. À noite, não consegui dormir, atormentado pela dúvida. Um zum-zum-zum entre enfermeiras corria nos corredores do hospital, e sendo o menino o único parente, chamei-o numa sala separada. Ficamos de frente um para o outro, de pé. Foi então que lhe contei sobre as doenças de seus pais e sobre o brutal prognóstico. O menino que me encarava abaixou a cabeça. Tive a impressão de que milhões de pensamentos cruzaram seu cérebro. Ficou em silêncio, de cabeça baixa por uns 30 segundos. A posição inclinada da face permitiu que as lágrimas escorressem, e elas caíram como duas gotas de chuva.

De repente, o menino levantou a cabeça e me olhou nos olhos, não disse uma palavra. Eu olhei para o menino e minha impressão era de que ele havia envelhecido 20 anos. Com determinação foi para o quarto onde estavam internados os seus pais. Nunca tocou no assunto com eles, que vieram a falecer meses depois.

O menino arranjou um emprego em um cartório e cuidou das irmãzinhas até que crescessem e se casassem. Nunca mais tive notícia dele. Há muitos anos vou, com frequência, à cidadezinha de Duplo Céu, passo por Nova Granada e Palestina, e então vem à mente aquela criança.

Em pensamento peço a Deus que o proteja e, aproveito o embalo para pedir ao Senhor que faça com que todos os meninos que sejam dotados da grandeza moral daquela criança, que envelheceu 20 anos em 30 segundos.

O brutal, sob certo aspecto, ou angelical, sobre outro aspecto, dessa história é que ela é verdadeiramente verdadeira.

Wilson Romano Calil é médico, advogado, professor, orador, escritor e ex-prefeito de Rio Preto.

Por Wilson Romano Calil em 08/09/2016 às 23:00