Artigo Cultural

Algoritmos

Artigo escrito por Lucila Papacosta Conte

      “(...) série metódica de passos que pode ser utilizada para a resolução de problemas e tomada de decisões.” 

Já ouvimos dizer que em nós existe uma “ multidão” de vozes. É frequente que   conversemos com ideias opostas no mesmo dia; muitas vezes, em poucos minutos, mudamos de opinião. Isso pode nos levar aos consultórios dos psiquiatras e por serem estranhas e desconfortáveis tais oscilações, de tempo em tempo, buscamos medicamentos para aplacar tal polifonia.

Amáveis leitores, não se assustem. Estou escrevendo isso para introduzir partes importantes de dois livros: HOMO DEUS de Harari e AMOR LÍQUIDO de Bauman – duas vozes importantes que se avultaram em considerações sobre o tempo em que vivemos. Escrevem enquanto vivem e sentem os impactos dos acontecimentos.

Bauman, sociólogo polonês, morreu aos 91 anos, no início deste ano e deixa obra extraordinária, pois viveu registrando com erudição e sensibilidade aguçada a “modernidade líquida” e a fragilidade dos laços humanos e a “ cegueira moral” que se instaura na vida organizada para consumo.

Harari, professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, com apenas 40 anos, publicado em 35 países consegue além de escrever uma breve história da humanidade em seu best-seller SAPIENS, continuar a nos incentivar para que, ao compreendermos sua visão de mundo com recém lançado no Brasil: HOMO DEUS, possamos repensar nossas certezas e, principalmente a ideia de que estamos agindo por vontade própria.

São muitas informações que podem ser preciosas para nos auxiliar na compreensão desse emaranhado universo de notícias e de “mandamentos” diferentes e divergentes, que chegam até nós como avalanches. Dados que iremos acrescentar aos que cada um de nós já tem e com eles continuarmos a religião do momento, segundo Harari: DATAÍSMO.

Caríssimos leitores, não será possível explicar apenas neste espaço o que significam termos como esse – pois para que aconteça o entendimento cada um precisará ler e pesquisar sobre o que seja algo tão simples como os ALGORITMOS.

Não estou divagando, podem acreditar em mim! Os textos que estou sugerindo com pequenas doses de “provocações” são relevantes para todos nós e podem nos defender assim como vacinas contra doenças provocadas por picadas de mosquitos transmissores de vírus.

Um dos raciocínios desenvolvidos por Bauman chega a nos assustar se não o considerarmos como algoritmo dos reality shows: “a vida é um jogo duro para pessoas duras. Cada jogo começa do zero, méritos passados não contam, você tem tanto valor quanto os resultados de seu último duelo.”

Em nossas relações afetivas deixamos de lado tanta frieza, pois, felizmente, ainda não se conseguiu formatar um padrão de comportamentos finitos para sentimento tão infinito e grandioso como o amor. Para aplicações nas bolsas de valores, para se encontrar um organizador de festas ou de armários tudo bem, valem as tabelas e os protocolos. Para se receber convidados para um jantar também vale a “pequena ética” – mas, sem o brilho nos olhos certamente tudo ficará insosso e desumanizado.

A inteligência artificial existe hoje e nós convivemos com sua autoridade em quase todos nossos instantes – haja vista as pesquisas constantes que fazemos no celular.

Há dias, pedia desculpas por apenas dar parte dos significados de uma palavra a um grupo de amigos que estavam todos pesquisando com grande rapidez e sem nenhuma preocupação de ferir minha já pífia estima. Todos estavam preocupados com o resultado e a cada significado lido mais se engrandeciam. Fiquei perplexa por vivenciar tal comportamento. Seguiam à risca o padrão estabelecido hoje em todo o mundo civilizado.

 Uma das afirmativas de Harari ao concluir HOMO DEUS precisou ser repensada naquele momento... frente ao grupo de amigos, tão especializados em pesquisas nas enciclopédias virtuais: será a vida APENAS um processamento de dados e a inteligência estará mesmo se desacoplando da consciência? Algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes poderão, em breve, nos conhecer melhor do que nós mesmos?

Será possível responder com tranquilidade e segurança, prezados leitores, o que é mais valioso HOJE para nós: a inteligência ou a consciência?

Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

 

Por Lucila Papacosta Conte em 16/02/2017 às 21:15