Artigo Cultural

Ao vencedor, as batatas

Artigo escrito por Lucila Conte

Humanitas tinha fome. Humanitas precisa comer.

E que não estejam muito quentes as batatas. Deliciosas como são devem estar em temperatura adequada para serem apreciadas como iguaria. Prêmio merecido: uma por dia em degustação lenta e delicada.

Os caríssimos leitores conhecem a afirmação acima, pois é de Quincas Borba, personagem de nosso ilustre Machado de Assis, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Quincas Borba aparece inicialmente em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e só em 1891 é ‘esclarecido’ no romance que recebeu o título: Quincas Borba.

Também o cão, amigo fiel do personagem, entra para o panteão dos famosos do mundo literário universal como Quincas Borba.

Num estilo inconfundível e brilhante, o nosso bruxo, desde jovem, ainda balconista da livraria de Paula Brito, quando publicou seus primeiros trabalhos, sempre se revelou como um homem de intensas e profundas reflexões.

Machado foi um casmurro, um homem solitário, introspectivo que refletiu em sua obra sua descrença na generosidade e na solidariedade entre homens, que para ele, eram egoístas e impassíveis diante da alegria ou tristeza do seu semelhante.

Nosso magnífico escritor exalta a solidão e o isolamento. A famosa e antológica máxima que sintetiza sua biografia e seu estar no mundo: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” – nos faz pensar.    

 Sim, ler Machado de Assis nos ensina a pensar, a ler, a interpretar e a escrever com mais precisão. Por isso, ele é Mestre e suas obras sempre estão presentes na lista de livros das mais conceituadas universidades do país.

Há quase cinquenta anos, no vestibular que prestei para cursar Letras, na memorável FAFI, o tema da redação foi o título desta crônica. Fico imaginando o quê uma jovem de dezenove anos escreveu nas folhas de almaço.

Agora, tenho argumentos de vida para dialogar com o Humanitismo – a teoria de Borba e compreender um pouco melhor o princípio: Humanitas.

Já vivenciei a situação de um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos. “ A paz, nesse caso, é destruição; a guerra é a conservação. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

Terminarei como iniciei: que as batatas estejam comíveis aos vencedores. Que tenham vencido com dignidade a guerra pela sobrevivência da tribo, pois sempre haverá sobreviventes da tribo dos exterminados e assim a vida continua ... e a guerra se justificaria ... Como a fome de qualquer espécie movimenta os mundos ... Termino bem pensativa e triste este texto!

Não haveria um jeito menos abrutalhado e violento para a convivência entre os homens?! Continuaremos abestalhados mesmo?!!

Que 2017 seja mais suave, mais simples, menos belicoso!

Obs: Leitores amáveis e curiosos, vocês conhecem a expressão: “dar lérias a pelintras”? (eu procuro não dar... !)  

  

Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

Por Lucila Papacosta Conte em 05/01/2017 às 23:32
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