Artigo Cultural

Poesia: a crônica dança da vida

Artigo escrito por Lucila Conte

“Se paro, eu penso;

Se penso, eu choro.”

Perceber e sentir são primários e nem exigem exercícios nem esforços que não sejam apenas o do viver. O racional em nosso corpo reconhece e dá nome às particularidades de nossos animais de estimação.

 Os gatos percebem a chegada até de uma sombra e sentem fome, sono e irritação e até “algum afeto”.

Já convivi com gatos e com eles aprendi muito sobre intuição e deles preservo como instruções essenciais: o arrepiar, o pisar maneiro e o desaparecer – a saída de cena quase misteriosa.

Os cães, ah, esses amáveis animais, me ensinaram a meiguice e a ferocidade; uma alegria fiel à chegada de pessoas queridas e a tristeza profunda na ausência delas.

Os pássaros trazem mensagens: convites, inspirações e convocação ao voo. As gaiolas entristecem a alma da gente, que nunca desiste de sonhar liberdades.

A repulsa que sentimos por certos animais nos revela muito de nós mesmos, dizem os entendidos. Assim, nem vou lhes contar minhas aversões, caríssimos leitores, pois aqui não é espaço apropriado para tais confissões.

Por que escolhi tema tão pueril para uma semana em que acontecimentos tão tristes ainda estão nos fazendo chorar? Exatamente porque nos contos de fadas quando as relações humanas se tornam insuficientes chegam os animais para avivar nossa percepção de que a alma em sua viagem pode tropeçar ou se perder, porém no final ela reencontrará seu coração, sua natureza divina, sua força, seu caminho em meio à floresta sombria, mesmo que demore e que o caminho tenha que ser feito e refeito ‘várias e várias vezes’. A resistência e a vontade de viver são exaltadas nos contos e nas fábulas onde os animais conversam com o homem.

O nosso corpo precisa ser animado constantemente por canções ancestrais de exaltação à vida. Em tempos, como o nosso, em que a tristeza e o desânimo não deixam espaço para a alegria, a leitura de contos, que sobreviveram à agressão e à opressão políticas, à ascensão e à queda de civilizações, aos massacres de gerações e a vastas migrações por terra e por mar, é aconselhável e medida de sobrevivência.

Segundo, Clarissa Pinkola Estés, os contos de fadas são joias multifacetadas e têm a dureza de um diamante. Talvez nisso resida seu maior mistério e milagre: os sentimentos grandes e profundos gravados neles resistem, não importa qual seja a estação. 

Estamos em tempo de presentear nossos familiares e amigos. Livros são presentes importantes. A seleção feita de Contos dos Irmãos Grimm pela autora citada acima está surpreendente.

Estou às voltas com o conto: O LOBO E OS SETE CABRITOS: uma deliciosa leitura, pois a cada linha fazemos tão incríveis analogias que transformam nosso humor. E fazer analogias é tarefa própria de nossa racionalidade. Misturar percepções, sentimentos e pensamento: uma preciosa maneira de ultrapassarmos o frio e angustiante cotidiano mergulhado apenas em tristezas e em desilusões.

Sim, poeta Gullar, você nos deu a certeira receita ao TRADUZIR-SE:

(...) Uma parte de mim/almoça e janta;/outra parte/se espanta,

       Uma parte de mim/ é permanente;/outra parte/ se sabe de repente.

       Uma parte de mim/ é só vertigem;/ outra parte/ linguagem.

       Traduzir-se uma parte / na outra parte/ - que é uma questão de vida ou morte - / será arte?

 

Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

Por Lucila Papacosta Conte em 08/12/2016 às 23:00
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