Artigo Cultural

Feliz Natal e 2017 de alegrias

Artigo escrito por Lucila Conte

Precisamos de rituais para suportar a vida consciente, organizada pelas marcas temporais. Para cada dia e mês, efemérides e seus ritos. Precisamos acreditar que as datas e eventos em sequência ininterrupta podem nos trazer as alegrias das quais precisamos para viver.

 O mundo organizado em calendário é bem complexo, exige atenção permanente. Porém é preciso simplicidade para vivenciar, sobretudo o Natal.

 Assim, já cumpridas tarefas próprias desses dias: a casa iluminada por luzes multicoloridas, carnes para os assados marinando e legumes, todos embalados, para que a salada não decepcione os vegetarianos... Agora, retiro o presépio da caixa dourada e começo o ritual da reverência e da busca pelo mistério que essas imagens contêm.

Acaricio uma a uma, enquanto, com uma flanelinha, procuro encontrar as marcas de tantos Natais em suas reentrâncias. As saliências, bem gastas porque já receberam mais toques de tantas crianças com dedinhos curiosos e inocentes que conversavam com elas, mudavam a ordem dos carneirinhos, colocavam o Menino Jesus dentro de caminhões e de trenzinhos para que passeasse.

 Num certo Natal, o Menino desapareceu e fomos encontrá-Lo num bercinho de boneca. Estava enroladinho em panos. (Parece que Ele estava bem feliz!).  Para levá-Lo de volta para a manjedoura precisei convencer as garotinhas com explicações que elas compreendessem. Contei a elas que Maria, mãezinha do Menino Jesus, estava aflita e com saudade dEle. Elas concordaram, após boa insistência minha, e devolveram a Criança ao lugar estabelecido.

Nem preciso lhes dizer que o Menino Jesus é o mais gasto das imagens e com muitas partes descascadas. O bercinho também, pois como é de palha até uma cachorra quis brincar com ele. Foi uma alegria para as crianças!! Para consertá-lo todos participaram trazendo fiapos das palhas esparramadas até pelo gramado.

São tantas as histórias ... Todas ternas e fazem parte da memória de cada família que se reúne para celebrar a festa do Amor.

O presépio, com sua riqueza de detalhes nos faz viajar no tempo histórico e no tempo das emoções mais genuínas da construção de nossos afetos.

O porquê o Deus Menino nasceu em manjedoura? Maria, José e a Criança, aquecidos pelo Burrinho e pela Vaquinha. Perto dos pastores e dos  carneirinhos?! Tudo tão simples, resguardados de olhares e de influências que poderiam macular o sagrado instante. A família se torna ícone e nos aponta para o essencial: cada família é única e não pode ser contaminada por olhares estranhos. Cada família tem singularidades e as suas receitas completam o ritual, sagra os encontros com o Essencial: (quase) invisível para nossos olhares, hoje, tão sofisticados e desprovidos de recato.

Em muitas situações, em que me atormento por causa de detalhes insignificantes, a lembrança do presépio e da máxima: “onde há abundância de supérfluos, falta o essencial”, me acalma!

Se estivermos juntos com as pessoas queridas ou até com nossas boas lembranças o Menino Deus encontra um jeito de nascer ... Não podemos tentar sufocar sua mensagem limpa e transparente com determinações mundanas. Ele veio nos apresentar um novo mundo onde o tempo deixa de ser o soberano e o Amor falará mais alto!

E uma prece explode em meu coração:

- Menino Jesus, aceite meu coração como manjedoura e desta vez será pra valer: vou cultivar o amor na simplicidade do Seu exemplo. Que cada encontro com o próximo possua o brilho da Estrela e que a Alegria ressoe como sinos pequeninos acolhendo e partilhando a boa nova: “Ele nasceu para nos salvar do egoísmo”.    

Assim, com o Amor reafirmado e cintilante possamos todos nós acolhermos 2017 com Alegria e bons augúrios.

Que estejamos presentes, que sejamos o presente no Natal e nos dias do Ano Novo! Que sejamos pacificadores, generosos e surpreendentes!!

Saúde a todos!!! Bom apetite e boas risadas!

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Nunca podemos nos esquecer de que para dar à Luz ao Menino Jesus, Maria e seu distinto esposo, José, precisaram se esconder de Herodes. Sempre há um Poder predador rondando e invejando a Paz, tecida no trabalho árduo, nos medos e nas inseguranças de todos os homens de boa vontade. Sejamos fortes e determinados... ELE VENCEU O MUNDO! 

 

Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

Por Lucila Papacosta Conte em 22/12/2016 às 22:00