Artigo Cultural

Preciso falar sobre a ternura

Artigo escrito por Lucila Conte

 (...) Perdoai

Mas eu preciso ser Outros

Eu penso renovar o homem usando

borboletas. (Manoel de Barros)

O massacre de nossos sonhos é desesperador. O poder público desmoronado causa um vazio democrático sem precedentes, cuja extensão nós ainda não somos capazes de avaliar. Há, segundo Ezio Mauro*, um ressentimento que na verdade vem a ser o ruído branco de uma época sem defesas.

Por isso, a ternura e a delicadeza entre nós, os aviltados, são indispensáveis para que possamos sobreviver em ambiente tão hostil e contrário a nossos mais caros valores.

Talvez seja o instante precioso e preciso para a transcendência, isto é, para adquirirmos asas para sobrevoarmos o charco. A poesia pode nos salvar como sempre salvou a todas as gerações de suas infelicidades. Os poetas precisam cantar não apenas sobre os dejetos e sim ousar novos significados para a nobilíssima esperança. Desgastadas rimas da descrença, descartadas ou iremos todos perecer. Existe no centro organizador de nossa humanidade a necessidade de acreditar. Acreditar não quer dizer crer em algo específico com nome e lugar determinados para se expressar a fé. Acreditar é fundamento e pressuposto para a mudança de passos em nosso cotidiano, no tictatear inescapável das horas.

A beleza conduz inevitavelmente ao que é bom e ao que é nobre. O Belo é força tão mobilizadora que cria e faz renascer bons e nobres sentimentos. Ao nos cercarmos do que é bonito abrimos as janelas de nossas almas para que, de lá, da terra misteriosa onde habitam os seres maravilhosos, Eros e Psiquê gerem entusiasmo em nossos relacionamentos.

Só de acreditar que assim seja assim começa a ser. É a receita para qualquer recomeço... Uma crença!

Movimentos promotores do embelezamento dos espaços públicos não servem apenas para proteção ambiental e muito mais para promoverem ambientes internos que exteriorizem bom humor, delicadezas e até gestos de bondade entre as pessoas. Neutralizam a violência e a ira, a revolta! Todos já observamos que quando entramos em qualquer lugar muito bonito até a nossa voz deixa os tons agudos e ganha suavidade como nossos passos, que se tornam mais leves. A reação ao belo é instantânea. Num repente, ficamos imersos no chamado estado de graça. E a bondade aflora em nós.

Quando uma instituição pretende ‘mesmo’ florescer, caso de qualquer repartição pública ou empresa privada, seus administradores iniciam seus projetos pelo embelezamento dos espaços. Embelezar não é sinônimo de exagero de despesas. A beleza sempre é mais econômica do que o desmazelo que gera patologias de todas as ordens. Higiene e beleza, saúde e harmonia caminham de mãos dadas na vida pública e na vida íntima de qualquer indivíduo.

Esperar mais o quê? Parece que já revolvemos bastante a terra e já nos demos conta de que o homem, deixado à solta, degenera. Agora, será bom tempo para plantarmos belas árvores, roseiras e margaridas e nos beneficiarmos com a singeleza delas! Quanta ternura existe num simples voo de lindas borboletas azuis e amarelas sobre nossas amarguras e decepções.

Vamos combinar?

- A partir de agora, todos teremos direito a um jardim...

  • Ezio Mauro, jornalista italiano que escreveu com Zygmunt Bauman – Babel (livro indispensável para nosso tempo) 

 

 

 Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

     

Por Lucila Papacosta Conte em 24/11/2016 às 22:00
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