Artigo Cultural

Andar com rumo certo num dia de chuva... que ilusão!

Artigo escrito por Lucila Conte

Nem todos vivem essa experiência de andar ou apenas passear em dias chuvosos, aqueles dias cinzentos em que a névoa deixa toda a paisagem com gosto e cheiro de mistério. Com rumo certo ou incerto... caminhar é impreciso... cada passo é uma ousadia.

Gregorius, professor suíço de línguas clássicas é personagem central do magistral livro/filme: “Trem Noturno para Lisboa” de Pascoal Mercier (pseudônimo de Peter Bieri- professor de filosofia em Berlim) – não está a passeio num certo dia de chuva em Berna – ele caminha rumo à universidade, onde é professor, quando se depara com uma jovem de casaco vermelho que está prestes a se atirar de uma ponte. Ao salvá-la, ele tem sua vida modificada.

A partir desse episódio a vida, antes pacata e ordenada de Gregorius, toma nova direção: a moça, salva por ele e que o acompanha até a escola, esquece na sala de aula o livro: Um Ourives das Palavras e passagem de trem para Lisboa no bolso do casaco vermelho.

Não vou estragar as surpresas da brilhante narrativa de Pascoal Mercier, caríssimos leitores. Minha intenção é clara: que vocês procurem o livro ou o filme para se encantarem.

Há reflexões surpreendentes que apenas incentivarão os sensíveis a buscar a leitura ou assistir ao filme brilhantemente adaptado pelo dinamarquês Bille August.  Sintam essa:

“Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com todo o resto?”

São questões sem respostas certas, pois temos infinitas possibilidades de contar e recontar a nossa história: conhecemos apenas parte dela composta por nossas circunstâncias e escolhas. E tantas de nossas escolhas não resultam de liberdade: são provocadas por forças maiores do que a razão pode compreender... Como é misteriosa nossa viagem... quase sempre solitária e incompreensível. Fatos que são apenas sombras de nossa grande e “verdadeira” narrativa... (Vai saber?!!)

Assisti ao filme neste último final de semana. A indicação me chegou de uma jovem que o assistiu diversas vezes (parecia que me falava do acendedor de lampiões do Pequeno Príncipe!!). Assistir ao filme na companhia de pessoa tão delicada me fez valorizar mais ainda o enredo e coisa não muito comum, embarquei também no trem da busca por sentido. Viajamos ao nosso encontro quando vamos a um lugar diferente e quase sempre quando embarcamos sentimos um mágico tremor pois intuímos que estamos caminhando para o confronto com nossa solidão.

Confrontarmos nossa solidão exige coragem e atitudes heroicas, pois a covardia nada mais é do que a renúncia ao novo, ao passo no escuro!

Sem garantias, caminhamos em dias de chuva ou em dias ensolarados – caminhamos no tempo, senhor da vida.

Sair de um lugar, “deslocar” e depois retornar ao lugar da partida: movimentos indispensáveis para encontrarmos nosso presente, fatia do tempo que está sempre a nossa disposição bastando apenas mudar os passos.

Nunca poderemos voltar a um determinado ponto de nossa vida e tomar um rumo completamente diferente daquele que fez de nós quem somos... só podemos no discurso, em narrativas e isso é coisa para bons escritores ou para tomarmos consciência de algumas de nossas lembranças ... Não podemos voltar ao passado, porém temos o presente e a escrita para todas as ousadias...

Não nos esqueçamos, caríssimos leitores, de que encontrar bons livros em dias sombrios, chuvosos ou muito claros é sempre um chamado... um alerta para que embarquemos em trens que partem para maravilhosos destinos.          

 

   Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

Por Lucila Papacosta Conte em 10/11/2016 às 23:00