Artigo Cultural

Uma classe de meninos, uma professora e a canção

Artigo escrito por Lucila Conte

Quando a emoção é intensa, fica difícil escrever bom texto. Saibam, caríssimos leitores, e me perdoem os excessos e as falhas, pois estou emocionada. O assunto é relevante, sobretudo por estarmos vivendo tempos complicados na Educação Brasileira.

Sim, estou sensibilizada e não poderia ser diferente: um grupo de alunos de uma sétima série, da qual tive o privilégio de ser professora em 1999, marcou um encontro comigo em frente ao colégio. Foi nesse sábado, 22.

Vou recomeçar: dias antes do Dia do Professor, uma jornalista, especialista em NOTÍCIAS DO BEM, me telefona para perguntar se eu concordaria em tirar fotos com alguns alunos “daquela sétima série do Colégio Miziara”. Contou-me que soube por relato entusiasmado de um músico que ele e seus colegas viveram uma experiência marcante com a poesia através das aulas da professora Lucila em sala de aula, há dezessete anos.

Combinamos que ao meio dia, em frente ao Colégio iríamos nos encontrar. Sem saber nada além de que os alunos iriam e que a jornalista faria fotos e conversaria com eles e comigo.

Nada precisava fazer ou levar, pois tudo já fora feito no passado. Sementes foram plantadas nos corações inocentes daqueles adolescentes.

Ficava apenas imaginando como eles estariam. Risonhos, sérios, comportados ou brincalhões? A vida estaria sendo boa para eles?

Já na chegada percebi que eles continuavam iguaizinhos. Parecia que o tempo não passara. Um brincava com o outro e se estivessem sentados na classe, como inicialmente eles pretendiam, certamente eu precisaria ficar um bocadinho séria e silenciosa para que eles se acomodassem.

Fui agraciada com abraços fortes e olhares tão generosos que posso garantir que nunca me esquecerei da doçura e da amizade que temos uns pelos outros. Sob árvores, um grupo de jovens de 30 anos, cúmplices de tantas vivências, irremediavelmente entrelaçados e a professora que guardava só para ela o carinho sem nunca imaginar um presente tão grandioso assim... Uma nova cantiga surge até dos silêncios e essa, também, conseguirá embalar gente grande... Preciso invocar Bandeira, embora saiba que seja:

O IMPOSSÍVEL CARINHO

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo

Quero apenas contar-te a minha ternura

Ah se em troca de tanta felicidade que me dás

Eu te pudesse repor

– Eu soubesse repor –

No coração despedaçado

As mais puras alegrias de tua infância!

   Ah, quando a gente envelhece todos os gestos de carinho ganham mais destaque. Não poderia imaginar que pudesse ser ainda pessoa viva e incentivadora de tão bela manifestação de gratidão neste tempo onde os velhos se tornam invisíveis e tantas vezes desprezados.

Se o bom mestre é aquele que, ao ensinar, tantas vezes aprende com os alunos, posso me considerar (embora, sem perder a modéstia!) uma boa mestra – como aprendi com todos! Cada brincadeira, cada tristeza, cada vitória, todas as perguntas e respostas incentivaram-me para que buscasse ser, a cada dia, melhor professora. Procurava as mais instigantes informações em jornais e os mais belos versos, nas antologias e dentro do coração.

Encontrar-me com os “meninos da sétima D” ensinou-me coisas daquelas que só o coração pode entender... Gratidão!     

     

Lucila Papacosta Conte, escritora e mediadora de estudos literários e filosóficos na Casa das Flores. Anthônia, heterônimo de Lucila – nas Cartas de Anthônia.

Por Lucila Papacosta Conte em 28/10/2016 às 00:21